31
jul
2018

A menina que usava vestido e tênis – Segundo capítulo

Acordei no dia seguinte, com um berro em meu ouvido:
— Bom dia! Vamos acordar mocinha?!
— Vó, mas hoje é férias!- falei ainda com os olhos fechados.
— Não é a sua vó! É a sua mãe!- ao ela terminar a frase, caí da cama.
— Você está bem filha?
— Agora que você chegou não.
— Me dê uma chance!- ela me ajudou a levantar.
— Para me largar novamente? E afinal, por que está aqui?
— Eu decidi te levar mais cedo pra cidade…
— Quê?!?!?!- gritei desesperada. — Não! Você não pode!
— Posso sim! Tanto, que já arrumei nossas malas para a viagem!- ela ergueu duas bolsas cheias de roupa.
— Por que você me odeia tanto?- falei desanimada.
— Eu não te odeio filha! Eu quero apenas passar mais tempo com você!
— Diz isso quando eu era pequena, e você me largou no sítio da vovó!
— Foi errado eu ter feito aquilo…- ela disse segurando minhas duas mãos.
— E você vem me dizer isso depois de dez anos?- a porta se abre, e de lá, aparece alguém.
— Você não quer que eu me transforme na vó rockeira depois de que eu me separei de seu avô, não é?
— Vovó!- disse a abraçando.
— Se você me ama tanto assim, por que não vai com a sua mãe? Vai ser apenas dois meses!
— Okay, mas eu só vou porque você insistiu, vovó!
— Assim me sinto mais aliviada- minha mãe disse, enquanto pegava as malas e ia se direcionando ao carro.

Nós iríamos viajar de avião. Então fomos até o aeroporto (que infelizmente era longe, pois morávamos no campo) e tivemos que esperar exatamente trinta e cinco minutos, porque tínhamos chegado atrasadas, e era para esperar o próximo voo.
— Filha você está muito quieta! Não falou o caminho todo!
— É que eu estou um pouco nervosa, ou será ansiosa?
— Não se preocupe com isso! Quando chegarmos lá, vou te mostrar o que é um celular!- eu olhei para cara dela com nojo.
— Você realmente acha que eu não sei o que é um celular?- quando terminei a fala, o avião estava pronto para os passageiros entrarem.
— Olha nosso avião chegou!- ela falou disfarçando.
Ao entrarmos no avião, tropecei em algo e caí de cara no chão.
— Você está bem?- alguém estendeu sua mão.
— Sim!- me levantei e olhei ao seu rosto. Era uma menina de cabelos castanhos curto, e olhos mais escuros que a noite.
— Oi! Me chamo Camillie!
— Me chamo Ketyllin!
— Você é daqui de Chapecó?
— Na verdade não, sou de Guatambu, é uma cidadezinha perto daqui.- falei um pouco tímida — E você?
— Eu sou de Florianópolis, mas vou começar a morar em São Paulo com o meu amigo…infelizmente…-a última palavra ela sussurrou.
— Por que você vai morar com seu amigo?- perguntei curiosa.
— Nossas mães são muito próximas, e tiveram a brilhante ideia de morarmos no mesmo apartamento!
— Que chato…- falei
— Concordo!- então sentamos em uma dupla de sofás- Aquela é sua mãe?- ela apontou para ela, que estava acenando em nossa direção
— Infelizmente sim.
— Nossa!- ela riu da situação- Você é bem legal Ketyllin!
— Pode me chamar de Kety!
— Meu apelido é Millie!…
Passou se uma hora de conversas alheias entre eu e a Millie. Enfim o avião havia pousado.
— Até mais Millie!- dei um abraço nela.
— Antes de você ir em bora,- ela anotou algo em minha mão- esse aqui é o meu telefone. Para nos manter contato!
— Mas eu…- antes que eu pudesse terminar a frase, Camillie já havia ido embora.
Olhei para trás, e vi minha mãe, de um sorriso de canto à canto.
— Filha tenho que te mostrar minha casa!- ela falou me pegando por um braço, e me guiando à algum lugar.
Ela havia chamado um Uber , e em poucos minutos já estávamos na nossa nova moradia.
Era uma casa branca de dois pisos. O residencial era incrivelmente lindo! Todo decorado com flores, e uma pequena fonte de água para decoração!
— Mãe, essa casa é excelente!
— Filha… não é essa casa, é a do lado!- olhei a casa e tomei um susto! Um condomínio de madeira podre, caindo aos pedaços. Era térrea e estava mal pintada de azul. O jardim era pequeno, e em vez de grama, como a casa branca ao lado, era barro vermelho!
— Por que não vá cumprimentar seus vizinhos?
— Tá bom… já que essa casa está quase desabando…- falei me dirigindo à casa de “Barbie” dos meus sonhos.
Bati na porta três vezes, porém ninguém atendeu.
— Olá? Tem alguém aí?- falei olhando ao redor.
— Quem ousa atrapalhar minha aula de canto?- saiu da porta uma garota da minha idade, de cabelos loiros compridos, e de olhos azuis.
— O-olá. Me chamo Ketyllin! Sou sua nova vizinha!- dei um sorriso um tanto forçado
— E eu com isso?!- ela fechou a porta na minha cara. Pelo jeito, os meus vizinhos eram bem “educados”.
Em vez de eu entrar na minha casa, decidi passear pela cidade grande. Era realmente enorme São Paulo. Toda movimentada, e cheia de prédios. Era o oposto de Guatambu. Dei uma olhada em volta, e vi uma pracinha, onde poderia sentar e tocar meu violão.

Peguei-o, me sentei em um banco, e comecei a tocar:
“I come home in the morning light
My mother says when you gonna live your life right
Oh mother dear we’re not the fortunate ones
And girls they wanna have fun
Oh girls just want to have fun”
De repente, uma menina sentou-se ao meu lado e começou a cantar junto:
“The phone rings in the middle of the night
My father yells what you gonna do with your life
Oh daddy dear you know you’re still number one
But girls they wanna have fun
Oh girls just want to have (…)”
— Nossa essa é minha música favorita! Claro depois de Havana, e New Rules!
— A minha também! Depois de Every Breath You Take, e All Star!
— Qual é o seu nome?- a menina me perguntou curiosa.
— Kety! Na verdade… Ketyllin! E o seu?
— Sabrina! Você é nova por aqui né?
— Como você sabe?
— Seu sotaque é caipira!- ela riu
— Isso não tem graça!- cruzei meus braços indignada
— Okay, okay… Mudando de assunto, a onde você irá estudar?
— Estou aqui apenas nas férias… Mas a onde você estuda?- falei com o propósito de conhecer mais a cidade
— Na escola “ High School Masks”! Vou para o nono ano!
— Que coincidência! Também irei para o nono ano! Só não entendi uma coisa… Por que se chama “Masks”- falei pensativa
— É uma escola de artistas. A especialidade deles é teatro! Por isso “Masks”!
— Então essa escola não seria pra mim! Nunca fiz curso de teatro, muito menos participei de alguma peça!
— Talvez seu pai queira que você participe da malhação!- ela disse rindo… Porém eu fiquei calada por um tempo, e a mesma percebeu o silêncio.
— O que houve?
— É que eu… Eu não tenho pai…- falei sentindo meus olhos inundarem de lágrimas- Mas está tudo bem! Afinal, você não sabia- terminei limpando meu rosto
— Sinto muito… – ela olhou para baixo.

Continua…

(Júlia Mantelli Copatti – 7º Ano A)